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You can buy the album on Matiére Mèmoire

REVIEWS

Rimas e Batidas July 2019
Os dois lançamentos anteriores de Susana Santos Silva, The Same is Always Different The Ocean Inside a Stone, receberam atenção no âmbito da coluna Notas Azuis, mas a próxima obra da trompetista a ser lançada, Life is a Mystery, álbum que inclui uma peça singular de 20 minutos, “Sometimes It’s Raining a Lot”, concebida a pedido da Matière Memoire, tem perfeito cabimento na Oficina Radiofónica que trata música que cai no vasto território da electrónica. O facto de entre as ferramentas usadas estar o sintetizador da Yamaha PSR-36, e, talvez até, sobretudo, o uso de gravações de campo e a indicação, de acordo com a ficha técnica, de que a composição contempla edição e manipulação electrónica, justificam plenamente que se olhe Life is a Mystery a partir da perspectiva da música electrónica.
Há um contexto digno de nota para este lançamento de Santos Silva na Matiére Memoire: a editora belga explica que em antecipação do ano 2020 pediu a 20 “grandes artistas” que criassem uma peça original de 20 minutos e respectivo artwork; desta forma, Susana Santos Silva integra um extraordinário lote de criadores em que se incluem figuras como Phil Niblock, Jim O’Rourke, Stephen O’Malley, Oren Ambarchi ou, para citar apenas mais um par de exemplos, Charlemagne Palestine e Kevin Drumm. Mais um sinal de um amplo reconhecimento internacional que atem afirmado a artista portuguesa como figura ímpar no panorama global da mais avançada música contemporânea.
Poderá dizer-se que são ténues os sinais do jazz ou da música improvisada em “Sometimes It’s Raining a Lot”. Por um lado, esta parece ser uma peça em que se dispensam muitas das características basilares do jazz, desde logo por não lidar com questões de tempo (ou de implosão de tempo) rítmico, e ainda que certamente uma dose generosa de improvisação possa ter estado na origem de alguma da massa sonora aqui tratada, nomeadamente no drone do trompete ou nos etéreos arremedos pianísticos, a verdade é que, colocados lado a lado com as gravações de campo, e depois de altamente processados, esses elementos acabam por, e tomando emprestado o nome da etiqueta que dá esta obra à estampa já no próximo mês de Agosto, ser matéria de memória indissociável dessoutra que resulta das gravações de campo: a voz captada no PA de uma estação, conversas truncadas, o ruído das rodas metálicas do comboio sobre os carris… Aliás, é impossível não ligar, até por isso, esta peça ao histórico Etudes aux Chemin de Fer, uma das obras fundacionais da música concreta, criação de Pierre Schaeffer datada de 1948. O fundador do Groupe de Recherches Musicales acreditava que música era organização de matéria sonora concreta e essa é precisamente a ideia que preside a esta criação de Susana Santos Silva que aqui combina sons captados de instrumentos reais – trompete, piano, sintetizador – com processamento de sinal, gravações de campo e edição e montagem (palavra-chave neste contexto) que no final resulta numa obra altamente abstracta, mas ainda assim vívida e capaz de imprimir sensações e até imagens no nosso pensamento.
Escrita, de acordo com as notas técnicas disponíveis, em finais de 2019 entre o Porto e Estocolmo, “Sometimes It’s Raining a Lot” permite, de facto, imaginar um movimento físico através de um qualquer espaço urbano, mas sempre com uma difusa ligação à realidade, não se entendendo se a peça ilustra uma viagem específica ou apenas uma memória de uma viagem, distante, mutilada pelo tempo, de que sobram apenas fragmentos dispersos. Ou nada disso, como é até mais provável.
edição física de Life is a Mystery será limitada a 500 exemplares, em vinil transparente com a faixa original de um lado, e artwork gravado a laser do outro. Tudo embalado numa capa transparente em que se inclui ainda um print do artwork criado pelo artista.